Friday, April 13, 2007

"INLAND EMPIRE" de David Lynch



Dizer que, se compararmos a complexidade "INLAND EMPIRE"("em letras grandes é mais fofucho", assim afirmou lynch), com "mulholland drive", o anterior filme do realizador, este mais parece um tomo da saga american pie não é exagero. Não me interpretem mal: eu venero o "mulholland drive" e não apenas e só pela bela da sequência lésbica entre a naomi e a laurinha, coisa fofa. O filme é um emaranhado de ficção vs. realidade, onde as fantasias de uns são as perdições de outros. No entanto, face à extrema complexidade de "INLAND EMPIRE" e ao seu gosto de estar dentro de um filme, numa peça de teatro, na televisão dentro de outro filme, o belo do "mulholland..." é mesmo uma brincadeira de crianças.

Portanto, sim pois. Quem viu "mulholland drive" e achou a narrativa de lynch uma completa banhada (e quem disse isso, que se acuse para eu proceder à merecida degolação desse ernegúmero/a), não vai aguentar 3 horas de puro delírio narrativo, recheado de pontas soltas, emaranhado complexo de esquemas mentais, misturando realidade, ficção, distúrbios, poesia. Poesia sim, porque parece-me crível que muito daquilo que se vê no filme foi imaginado e concebido por certas e determinadas figuras.

No entanto, aquilo é lynch. Logo é impossível dar-se azo a uma interpretação coerente do filme. Muito menos vendo-o apenas uma vez. O que se pode dar é um fiozinho genérico, que é obviamente mínimo: uma mulher(laura dern) é seleccionada para um papel num filme. No entanto vem-se a descobrir passado pouco tempo, que o filme é na realidade um remake de outro que não foi acabado, porque os dois protagonistas foram assassinados.

O resto são quadros e pontas soltas. Jogos de luz e de contrastes. Um quadro surrealista para que nós possamos entender as peças da maneira que achemos mais conveniente. quem é na verdade Sue, a mulher que está a fazer o papel de nikki? Será ela mesmo nikki? Será as duas? Será outra coisa qualquer? Não se sabe. e quem diz nikki/sue, diz todas as personagens que se vão interligando. Diz, a rapariga que chora, o povo polaco que aparece no filme(pois o filme original que sue vai representar, era polaco), o tipo que está no cimo das escadas. Diz tanta gente, e tantas figuras que é impossível discernir convenientemente o significado de todas elas. De nenhuma delas aliás.

Porque david lynch é um pintor: e cada pedaço de sua tela está recheado de pormenores ínfimos que têm correspondência; precisam no entanto de ser ligados correctamente, e isso tem que ser feito através de todos os outros pormenores que chegam ao espectador. È por isso um exercício intelectual extremamente desafiante, aquele que lynch propõe. Um exercício surrealista, um misto de fantasia, com verdade, com medo, com complexidade e emoção. Pena que por vezes o faça através de repelões, e não sensibilizando o espectador, o que de vez em quando cria uma barreira psicológica. È normal que nos percamos lá dentro, porque não sabemos todos o caminho para o fim do labirinto. Mas o mais saboroso é poder apreciar os seus becos sem saída, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, eles vão ser decisivos para saírmos do ermo em que ficámos.


9/10

1 Comments:

Anonymous joana coimbra said...

fui ver este filme ao cinema e ao fim de duas ou três horas que lá estive saí completamente claustrofóbica. o lynch anda cada vez mais tolo, raio do homem, o enredo do filme nao tem ponta por onde se lhe pegue.
mais vale a pena aproveitar o filme em termos de atmosferas criadas e assim do que ficar a espera que se perceba alguma coisa...se a propria actriz principal do filme nao percebeu o enredo...XD

10:58 PM  

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