Friday, January 27, 2006

MATCHPOINT (ou como gostar de ópera é fundamental quando se quiser comer a Scarlett Johansson)



Londres, actualidade. Chris,um tipo irlandês que veio de classes baixas, arranja um emprego como treinador de ténis, num clube londrino da alta sociedade. Entre variados conhecimentos, toma contacto com um rapaz de classe alta, Tom. A este confessa-se admirador de ópera, e o outro acaba por convidá-lo para uma naquela mesma noite. Na ópera conhece a irmã dele,Chloe, começa a sair com ela e a ter um relacionamento um pouco mais sério. Até que toma contacto com Nola, precisamente a noiva do seu futuro cunhado. E é a partir daqui que toda a acção se desenrola com uma consequência extremamente previsível: È óbvio que Nola e Chris iniciam um romance, é óbvio que Chris casa com Chloe e trai-a até mais não, é óbvio que não vemos um fim à vista para este desenlace, mas só sabemos que tudo deve ir acabar mal para toda a gente. Aliás as próprias árias de ópera que são ouvidas no filme pretencem a uma tragédia(é-nos mencionado o nome no filme, mas eu sinceramente não me recordo), e existe até uma citação a Sófocles, o autor do "Rei Èdipo", uma das tragédias gregas mais famosas à face da terra.

Por isso o filme de Woody Allen parece óbvio. Constatamos este facto logo de início, e vamo-nos deleitando com as excelentes sequências em que surge a cidade de Londres sempre secundada por alguma das personagens. Aliás ,e para que fique claro, a realização de Woody Allen é absolutamente irrepreensível: A forma como Allen filma Londres é excepcional, envolvendo-a numa atmosfera de suspeição enorme, tentando filmá-la de um modo claro, mas sem nunca desvirtuar um véu denso e negro ao qual a película está sempre votada.E é sempre em deambulações pela cidade que o filme se encontra com a sua proposta estilística: Sabemos que a suposta tragédia vai recomeçar quando Nola e Chris se reencontram no meio da rua.Temos a consciência de que londres é o mote para tamanho ambiente de suspeição, e que provavelmente mais nenhuma cidade do mundo conseguiria oferecer. Nem mesmo a menina dos olhos de Allen, Nova Iorque.

O filme é tão óbvio que nos dá todos os dados possíveis: Cria cenas belíssimas, quando Chris e Nola fazem sexo no meio do campo, sob uma intensa chuvada, apaga o possível entrave da relação entre os dois, quando Tom indica ao cunhado que já não namora com Nola, inclusivamente oferece o climax de toda a relação: a também óbvia gravidez da antiga namorada do cunhado. Podemos até criar todo um ror de interpretações possíveis daquele relacionamento: O facto de Chris poder estar pouco identificado com o demasiado artificialismo daquela mesma classe, notório nas conversas ao jantar, no facto de vermos apenas os seus elementos em óperas,galerias de arte, e courts de ténis, negligenciando a vertente laboral. Por outro lado nota-se que Chris adora aquela vida: Ele nunca tem tenções de abandonar a mulher, sobretudo pela forma de como subiu de treinador, para importante gestor da empresa do sogro, e npelo estilo de vida cheio de privilégios que leva.

No entanto tudo isto é subvertido na meia hora final do filme: E todos os códigos, os quais nos propusemos desvendar, modificam-se radicalmente, não deixando espaço para interpretações de um filme que sempre parecera óbvio. E que nunca deixara antever concretamente aquilo que iria acontecer, pese emvora todos os dados fornecidos poderiam perfeitamente indiciar o caminho tomado. Diremos apenas que o filme é uma tragédia que acaba com o herói a sorrir maliciosamente a todas as adversidades: Como uma partida de ténis, onde o jogador que ganha suborna o árbitro, e ainda é vangloriado por toda a imprensa. Porque ninguém o consegue odiar, e todos querem que ele seja o vencedor.

Densas são igualmente as interpretações, sobretudo por parte de Jonathan rhys-meyers que prova ser deveras sorumbático, movimentando-se qual raposa faminta por comida. Neste caso Scarlett acaba por ser a deliciosa presa que surge quase como femme fatale, pronta a ser objecto de desejo para qualquer homem. È o pecado, sendo um total paradoxo da benevolência e compaixão que Chloe demonstra ter. E, se Emily mortimer, consegue ser uma Chloe extremamente frágil e dócil, Scarlett personifica uma actriz falhada, que sempre teve o condão de deixar os homens à beira de um ataque de nervos.E surge resplandecente como sempre.

No geral Allen filma o trágico. A história de dois amantes que tem que acabar mal. E acaba. O problema é que no fim damos umas boas gargalhadas, temos um sorriso quase cúmplice com quem é fonte de mal, e não nos importamos. Achamos que foi tudo tão genial, que só tememos que um erro de palmatória dessa mesma fonte estrague um compêndio de pseudo-acasos tão bem elaborado. No entanto isso ainda vai suberter mais aquilo que seria um filme óbvio. Mas não o é. E é nessa transformação narrativa, de que aquilo que já era um grande filme se torna fantástico. Como um emocionante matchpoint numa qualquer partida de ténis, entre um agassi e um federer.

9/10

2 Comments:

Blogger Joana C. said...

O filme é realmente belíssimo :D

9:32 PM  
Blogger Ricardo Pinto said...

Acho que o filme não é assim tão
óbvio, tem um alto grau de previsibilidade, mas os seus objectivos e as suas possíveis leituras são bastantes diversificadas. Posso argumentar que Chris não teve sorte nenhuma, aliás teve azar, como teve no ténis, a bola (o anel) ficou do lado dele da rede, e depois de ter sido encontrado no bolso do outro assassino, impediu-o de receber o castigo que inconscientemente desejava, como é revelado na cena em que sonha com Nola e com a sua vizinha.

11:21 PM  

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